GRAMÁTICA
GRAMÁTICA
Grafia: a arte da escrita
Saudações, caro leitor. Você talvez já tenha se perguntado qual foi a maior criação da mente humana. Qual invenção nos fez ser aquilo que somos, levou-nos a chegar onde estamos, aquilo que nos possibilitou atravessar os séculos e possivelmente concedeu a imortalidade para a civilização? Para ajudar, pergunto: qual a coisa mais próxima do homem ou que mais se assemelha ao homem? E lhe respondo: o livro. Portanto, nossa maior invenção, a chave para a imortalidade é a escrita.
O Homo sapiens emergiu há aproximadamente 300.000 anos, aventurando-se do berço africano para as demais porções de terra. Desbravou domínios inéditos: densas florestas, escaldantes desertos, encarou a face profunda dos oceanos. Seu legado é hoje descoberto por pistas arqueológicas e biológicas deixadas acidentalmente por nossos ancestrais (Ujvari, 2008). Séculos transcorreram e inovações em nosso modelo de vida nos libertaram para estados maiores da consciência. Dentre tais engenhocas, defendo que a mais significativa foi a escrita. Imagine, prezado ledor, o seguinte cenário: um governante há 5.000 anos buscou administrar seu domínio. Tal atividade exigia algum tipo de registro escrito, como mensagens para seus generais ou anotações das safras de grãos e contagem de gado, o que impulsionou o desenvolvimento de distintos sistemas de sinais gráficos. Essencialmente, a escrita representa a expressão gráfica do discurso, o registro físico da linguagem falada, tal como disse Marcel Cohen (1958, p. 11): trata-se de “uma representação visual e durável da linguagem, que a torna transportável e conservável” (“une représentation visuelle et durable du langage, qui le rend transportable et conservable”). Uma invenção universal e abrangente, ela é a representante da inteligência humana. Visualizemos o mundo sem ela. Aspectos como cultura (inteligência transmissível), religião, comércio, poesia, filosofia, história e ciência – tudo aquilo que depende de um certo grau de permanência e transmissão – seriam incomensuravelmente restritos (Diringer, 1968, p. 15).
Assim, nascida da necessidade prática, as origens da grafia grega datam de cerca de 800 a.C. Um dos primeiros sistemas de escrita grega foi a linear B, um silabário empregado pelos povos micênicos entre os séculos XV e XII a.C. Contudo, após a queda dessa civilização, o silabário foi substituído pelo conjunto de signos que, posteriormente, constituiriam o alfabeto grego (Cenatti, 2014). Sua gênese não reside em uma confecção gráfica original, mas sim em uma adaptação da escrita fenícia preexistente, introduzida entre os povos helênicos, provavelmente por mercadores do Mediterrâneo. Ela se diferencia das escritas lineares e hieroglíficas que a antecederam, na medida em que cada símbolo passa a representar uma única consoante, e não uma sílaba ou conceito. Todavia, havia um desafio pela frente. Como língua semítica, a escrita fenícia não possuía letras independentes que representassem sons vocálicos (como ainda é no árabe e no hebraico). Dessa forma, os gregos trouxeram uma notável inovação, que mais tarde seria transmitida para as escritas europeias, através do alfabeto latino e cirílico: as vogais (Powell, 1991, p. 5-18).
Creio que você já deve ter percebido a importância do registro escrito de uma língua, sobretudo a grega. Afinal de contas, nossa própria escrita descende dos gregos, assim como a literatura. Nesse sentido, para poder realmente entender o idioma de Homero, o primeiro passo consiste em aprender a ler e escrever. Mas antes, alguns avisos.
(I) A pronúncia das letras gregas na Antiguidade não é conhecida com exatidão. Erasmo de Roterdã, um erudito do século XVI, propôs uma pronúncia que visava facilitar o aprendizado do grego, denominada pronúncia erasmiana;
(II) A própria língua grega antiga era constituída por um conjunto de dialetos (como o jónico, o eólico e o dórico), que evoluíram ao longo dos séculos. Assim, variações de pronúncia segundo localidade e período histórico são observadas;
(III) Cada idioma contemporâneo busca a máxima aproximação com a pronúncia clássica. Mas falantes nativos de inglês, espanhol, japonês, mandarim, português, entre outros, por mais que se esforcem para alcançar uma sonoridade padronizada, manifestarão suas particularidades fonéticas.
Este texto nada pretende além de introduzir o leitor em uma pequena viagem pela escrita grega e fornecer ferramentas preliminares para iniciar sua alfabetização. Tomaremos como ponto de referência o dialeto ático (um ramo do dialeto jónico), o chamado grego clássico.
Adentraremos, a partir de agora, o estudo das letras helênicas. O alfabeto grego padrão é composto por vinte e quatro letras (para estes dados, baseamo-nos sobretudo em Ragon, 2011; e Aprendendo grego (Reading Greek), 2014.
ALFABETO GREGO
Maiúsculas (1)
Minúsculas
Nome
Pronúncia
Α
α
ἄλφα
alpha
a
“a” como em gato
Β
β
βῆτα
beta
b
“b” como em barco
Γ
γ (2)
γάμμα
gamma
g
“g” sempre como galo e guerra, nunca como em gelo.
Δ
δ
δέλτα
delta
d
“d” sempre como em dado, nunca como em dia
Ε
ε
ἒ ψιλόν
epsilon
e
“e” como em dedo (ê)
Ζ
ζ
ζῆτα
zeta
dz
“sd” como em desde / ou “dz” como em zanzara (em italiano)
Η
η
ἦτα
eta
e
“é” como em seta ou café (éé)
Θ
θ
θῆτα
theta
th
“t” aspirado como em time/ ou “th” como em think em inglês
Ι
ι (3)
ἰῶτα
iota
i
“i” como em rio
Κ
κ
κάππα
kappa
k
“k” como em casa ou em queijo
Λ
λ
λά(μ)βδα
lambda
l
“l” sempre como lado
Μ
μ (4)
μῦ
my
m
“m” como em marca
Ν
ν (4)
νῦ
ny
n
“n” como em navio
Ξ
ξ
ξῖ
ksi
x
“ks” sempre como em táxi
Ο
ο
ὂ μικρόν (οὖ)
omicron
o
“ô” como em ovo
Π
π
πῖ
pi
p
“p” como em papel
Ρ
ρ
ῥῶ
rho
r
“r” sempre como em caro
Σ
σ ς (5)
σῖγμα
sigma
s
“s” sempre como em massa, nunca como em liso
Τ
τ
ταῦ
tau
t
“t” como em tatu, nunca como em tio
Υ
υ (6)
ὖ ψιλόν
ypsilon
y/u
“ü” como u francês ou ü alemão (ou simplesmente i)
Φ
φ
φῖ
phi
ph
“p” aspirado como em pen em inglês britânico / ou como “f” em filosofia
Χ
χ
χῖ
chi
kh/ch
“kh” como em bach (em alemão), ou “qu” aspirado como em máquina
Ψ
ψ
ψῖ
psi
ps
“ps” como em psicologia
Ω
ω
ὦ μέγα
omega
o
“ó” como em ópera (óó)
Observações importantes
As letras maiúsculas só são utilizadas em nomes próprios e no início de parágrafos.
O γ diante de γ, κ, χ e ξ pronuncia-se nasalizado, como um n (γγ - ng, γκ - nk, γχ - nkh, γξ - nks) como em ἄγγελος (ángelos), ἀνάγχη (anánkhē), λαγχάνω (lankhánō), σφίγξ (sphínks).
A letra iota (ι) nunca recebe ponto.
As letras μ e ν são pronunciadas distintamente (como em mamute e novela) e nunca nasalizam a vogal anterior (como em canto).
A grafia do sigma (ς) só é utilizada no final das palavras, enquanto a forma σ é empregada tanto no início quanto no meio das palavras. Além disso, sua pronúncia sempre é forte e surda, como em aço, e nunca sonora, como em casa.
A pronúncia original do ypsilon (υ) assemelha-se com a vogal u francesa ou ü alemã. Todavia, é comummente articulada apenas como um i em biologia.
O grego utiliza ponto e vírgula (;) para o sinal de interrogação (?) e ponto alto (·) para dois pontos (:) ou ponto e vírgula (;). O restante da pontuação é como no português.
Para além da letras, os ditongos mais comuns do grego são:
Ditongos
Maiúsculos
Minúsculos
Transliteração
Pronúncia
ΑΙ
αι
ai
“ai” como em pai
ΑΥ
αυ
au
“au” como em mau
ΟΙ
οι
oi
“oi” como em faróis
ΕΥ
ευ
eu
“eu” como em chapéu
ΕΙ
ει (1)
ei
“êê” como em seda
ΗΥ
ηυ
eu
“eu” como em meu
ΟΥ
ου (1)
ou
“u” como em uva
Observações importantes
Os ditongos ει e ου são falsos ditongos e são pronunciados como ê (fechado-longo) e u, respectivamente.
Note, prezado leitor, que no processo de apresentação das letras gregas foram empregadas letras latinas equivalentes à sua fonética. Este processo denomina-se transliteração, que consiste na conversão de um texto de um sistema de escrita para outro, mediante a substituição dos caracteres originais por outros que possuam pronúncia análoga em um sistema distinto. Tal prática é profícua para a preservação da sonoridade e da pronúncia original das palavras, conferindo ao falante a capacidade de proferir vocábulos de outro idioma sem a necessidade de dominar sua escrita. Analise-se o seguinte exemplo: a palavra 津波 é transliterada como tsunami. Não foi preciso falar japonês para saber como pronunciá-la, basta conferir sua transliteração da escrita japonesa para os caracteres latinos. Esse processo de transliteração possui sistemas padronizados para cada idioma.
Para prosseguirmos com a compreensão da língua grega, e tendo em vista que o alfabeto já é de seu conhecimento, abordaremos quatro tópicos essenciais na ortografia grega: a distinção entre vogais curtas e longas, a utilização do iota subscrito, a aplicação das aspirações e a acentuação grega.
Vogais curtas e longas
O grego possui no total 7 vogais (α, ε, η, ι, ο, υ, ω), algumas delas sendo longas ou curtas. Quando se diz que uma vogal é longa, significa dizer que o tempo que se leva para pronunciá-la é o dobro de uma vogal curta. Assim, três vogais podem ser tanto longas como breves (α, ι, υ) e o sinal mácron às vezes é empregado para marcar as longas (ᾱ, ῑ, ῡ). Já os ditongos e as vogais η e ω são sempre longos; ο e ε são sempre breves.
Iota subescrito
Há casos onde o iota (ι) foi perdido na pronúncia clássica e passou gradualmente a ser mudo, ainda sendo escrito. Isto ocorre geralmente depois de uma vogal longa (α, η, ω) e é representado em forma de um pequeno traço vertical logo embaixo da letra (ᾳ, ῃ, ῳ); por isso chama-se iota subscrito. No ambiente de letras maiúsculas, o iota pode vir tanto subscrito às vogais ᾼ, ῌ, ῼ, como logo ao lado delas Αι, Ηι, Ωι, uma prática nomeada como iota adscrito. Em ambos os casos, ele continua mudo e nunca recebe acentuação. Sua permanência na escrita mostra-se útil tanto para se entender como era a pronúncia antiga, como nas declinações gramaticais dos nomes. Por isso, não o ignore!
Aspirações (espíritos)
Em grego, todas as palavras que iniciam com vogal recebem um sinal diacrítico indicativo de aspiração ou de sua ausência. O espírito áspero, também conhecido como rude, indica uma aspiração inicial (como em inglês home), como em ὅρος (hóros), ὁπλίτης (hoplítēs), Ἑλλάς (Hellás). Por outro lado, o espírito doce ou suave sinaliza a ausência de aspiração. Sua pronúncia é simplesmente a articulação da vogal que a abarca (ἄργη - árge, ἐγώ - egṓ, ἰᾱτρός - iātrós, ὤ - ṓ). Didaticamente, o espírito áspero é representado pela letra H, enquanto o espírito doce é simplesmente a vogal que ele acentua. Uma dica valiosa: quando uma palavra iniciar por ditongo, o espírito é sempre posto sobre a segunda vogal (como em Αἴσχυλος). E por fim, a letra ρ (rho) inicial e o υ (ypsilon) inicial sempre recebem o espírito áspero (como em ῥήτωρ e ὕμνος).
Acentos
Finalmente, os acentos constituem sinais gráficos utilizados sobre as vogais para indicar a sílaba tônica das palavras. Eles se dividem em:
Agudo: pode aparecer nas três posições finais de uma palavra e sobre vogais breves, longas e ditongos. ἄνθροπος, νόμος, ἀγορά.
Circunflexo: pode aparecer nas duas posições finais de uma palavra, mas só sobre vogais longas ou ditongos: properispômenas (penúltima sílaba) como em δῶρον; e perispômenas (última sílaba) como em τῇ ἀγορᾷ.
Grave: não é um acento propriamente dito e sim um substituto do acento agudo em palavras oxítonas quando seguidas de outras palavras. Utilizado para marcar sequência. Observe: καλὸς καὶ ἀγαθός.
Outra dica de ouro: os acentos podem se combinar com os espíritos, como em ἄνθροπος, ὕβρις, ᾧ. Também são postos sobre a segunda letra de ditongos (οἴκος, πλοῦτος, Αἴγυπτος); usualmente, sobre maiúsculas, são colocados antes, ao lado esquerdo (Ἕλλην).
Leitura em ação
Agora é com você. Apliquemos as equivalências já sugeridas ao longo do texto e façamos a transliteração do alfabeto grego ao românico, nosso alfabeto. Para isso vamos ler o seguinte parágrafo, presente no primeiro texto do Aprendendo grego (2014, p. 4).
τò πλοῖόν ἐστιν ἐν Βυζαντίῳ. ἐν δὲ Βυζαντίῳ, ὁ Ἡγέστρατος βαίνει εἰς τò πλοῖον, ἔπειτα ὁ Ζηνόθεμις βαίνει εἰς τò πλοῖον, τέλος δὲ ὁ κυβερνήτης καὶ οἱ ναῦται εἰσβαίνουσιν εἰς τὸ πλοῖον. τὸ δὲ πλοῖον πλεῖ εἰς Χίον. ἐν δὲ Χίῳ, ὁ ῥαψῳδὸς εἰσβαίνει. ἔπειτα δὲ πλεῖ τὸ πλοῖον εἰς Εὔβοιαν. ἐν δὲ Εὐβοίᾳ, εἰσβαίνει ὁ Δικαιόπολις. τέλος δὲ πρὸς τὰς Ἀθήνας πλεῖ τὸ πλοῖον καὶ πρὸς τὸν Πειραιᾶ.
tò ploîón estin en Byzantíōi. en dè Byzantíōi, ho Hēgéstratos baínei eis tò ploîon, épeita ho Zēnóthemis baínei eis tò ploîon, télos dè kybernḗtēs kaì hoi naûtai eisbaínousin eis tò ploîon. tò dè ploîon pleî eis Chíon. en dè Chíōi, ho rhapsōidòs eisbaínei. épeita dè pleî tò ploîon eis Eúboian. en dè Euboíai, eisbaínei ho Dikaiópolis. télos dè pròs tàs Athḗnas pleî tò ploîon kaì pròs tòn Peiraiâ.
REFERÊNCIAS
UJVARI, Stefan Cunha. A história da humanidade contada pelos vírus. São Paulo: Editora Contexto, 2008.
COHEN, Marcel. La grande invention de l’écriture et son évolution. Paris: Imprimerie Nationale: Librairie C. Klincksieck, 1958.
DIRINGER, David. A Escrita. Lisboa: Editora Verbo, 1968.
CENATTI, Márcio José. O alfabeto grego clássico: alguns estudos introdutórios para iniciantes. São Paulo: Editora Ixtlan, 2014.
POWELL, Barry B. Homero e a Origem do Alfabeto Grego. Cambridge: Cambridge University Press, 1991.
PEEK, Philip S. Ancient Greek I: A 21st Century Approach. Open Book Publishers, 2021.
JACT, Joint Association of Classical Teachers. Aprendendo Grego. Tradução de Luiz Alberto Machado Cabral e Cecília Bartalotti. São Paulo: Odysseus Editora, 2014.
RAGON, Emile. Gramática Grega. Tradução de Cecília Bartalotti. São Paulo: Odysseus Editora, 2011.
MURACHCO, Henrique. Língua Grega: visão semântica, lógica, orgânica e funcional. São Paulo: Discurso Editorial; Petrópolis: Editora Vozes, 2002.
SOBRE O AUTOR
Vanderlei RJA Kitagawa é formado em Biomedicina pela UEM e estudioso de línguas.