LITERATURA II
LITERATURA II
As Traquínias de Sófocles: o amor que mata
Desejo e paixão definem esta tragédia sobre o destino. Talvez a menos estudada de Sófocles, a peça As Traquínias foi, por muito tempo, pouco conhecida e analisada, despertando maior interesse acadêmico apenas recentemente. Mesmo enquadrando-se nos moldes aristotélicos, a obra sofreu com leituras equivocadas devido à sua estrutura dúplice, com duas linhas de ação: uma em torno de Dejanira e outra de Héracles. A peça revela dois espaços e modos distintos de existir na sociedade: o oîkos, comandado por Dejanira, e o espaço guerreiro, violento, por Héracles. O encontro desses mundos conduz ao desfecho trágico dos dois destinos (Dagios, 2020, p. 207).
Além dos conflitos individuais, a peça reflete as tensões sociais da pólis, especialmente quanto ao lugar da mulher. Nesse sentido, a perspectiva de gênero se mostra relevante para a análise, pois a tragédia apresenta um mundo no qual homens e mulheres ocupam espaços bem definidos hierarquicamente (Dagios, 2020, p. 209). Como destaca Nicole Loraux (apud Dagios, 2020), a tragédia grega traduz uma visão masculina da sociedade, por ser escrita por homens e para homens. Essa dimensão evidencia a complexidade com que o texto deve ser lido e revela representações idealizadas do feminino, ao apresentar comportamentos considerados normais ou desviantes.
Acompanhando Dejanira, não vemos apenas seus dilemas, mas as pressões sociais e limitações impostas às mulheres no contexto grego. Seu discurso reivindica o papel de esposa legítima e seus atos buscam preservar sua timé, sua honra doméstica. Embora As Traquínias possa ser considerada uma peça atípica, exemplifica, contudo, o estilo de Sófocles, no qual os dilemas pessoais e a inevitabilidade do destino revelam a impotência humana diante do que escapa ao seu controle.
A ação dramática se passa em Tráquis, na Tessália, e o coro, formado pelas jovens da região, justifica o título da obra. A narrativa começa com Dejanira enviando o filho Hilo em busca de Héracles, ausente há muito tempo. Consumida pela ansiedade, ela alterna esperança e angústia, em relação ao paradeiro do marido, o herói imbatível. Como aponta Jebb (2010, p. xxxii, tradução nossa), “desde a juventude ela suportou ansiedades constantes, aliviadas apenas por vislumbres de felicidade — nas raras e breves visitas de Héracles à sua casa”.
Essa ansiedade está diretamente ligada ao papel social do casamento na Grécia. “As ações de Dejanira são regidas por uma moral cívica, referente à sua situação de esposa e mãe, uma noção de timé própria ao mundo do lar” (Dagios, 2020, p. 207). A espera pelo marido revela o peso social do casamento, em que o oîkos é o centro da vida da mulher. Como lembra Vernant (2006, p. 26), “o casamento é para a moça o que a guerra é para o rapaz”, um pacto que define o lugar de cada um na coletividade.
O afastamento prolongado de Héracles e seu envolvimento com a jovem Íole são, portanto, mais que questões afetivas: representam uma afronta pública à posição social de Dejanira. A solidão do leito, expressão do abandono conjugal, simboliza a fragilidade de sua posição e a ruptura da normalidade do matrimônio. A situação se agrava quando um mensageiro anuncia o retorno de Héracles e, em seguida, Licas, arauto do herói, traz prisioneiras de guerra, entre elas Íole, nova paixão do herói. O dilema de Dejanira se intensifica: traída e humilhada, oscila entre raiva, ciúme e o desejo de reconquistar o amor do marido. Sófocles expõe de forma sensível a vulnerabilidade humana diante da rejeição.
O drama de Dejanira também reflete as restrições sociais impostas às mulheres. Não se trata apenas de ciúme, mas de ameaça concreta à sua posição no oîkos, base de sua existência social e simbólica. A expressão “viuvez do leito” evidencia o risco à honra e à estabilidade do lar (Dagios, 2020, p. 215). Após anos de ausência do marido, Dejanira tenta desesperadamente retomar o controle da situação, recorrendo ao filtro de amor feito com o sangue do centauro Nesso que o próprio herói, para salvá-la, matou no passado. Ela entrega a vestimenta a Licas, dizendo:
[...] leva a meu distante esposo
esta longa veste, dom de minha mão;
ao dá-la, diz-lhe que nenhum mortal
antes dele a deve pôr no corpo,
e que não deve vê-la nem a luz do sol,
nem sacro recinto, nem fogo de lar
antes que em pé, visível, ele visivelmente
a mostre aos deuses em dia de sacrifício táureo.
Pois fiz voto de que, se um dia o visse
salvo em casa (ou ouvisse com certeza),
com esta túnica iria vesti-lo e apresentá-lo aos deuses,
novo sacrifício num traje novo. (Sófocles, Traquínias, v. 602-614)
O plano, contudo, resulta em tragédia. A túnica envenena Héracles, Hilo acusa a mãe de assassinato e, ao perceber o engano, Dejanira tira a própria vida. Héracles, tomado de dor e ódio, entende, por fim, que tudo cumpria a profecia: seria morto por um morto. O episódio com o centauro Nesso já indicava a ausência de uma conexão verdadeira entre as almas de Héracles e Dejanira. Ao ser dominado por desejo erótico, o herói trai a esposa e, ironicamente, vê-se vencido, não em batalha, mas pela traição e pelo próprio erro. Consumido pelo remorso, aceita a morte na pira, buscando, no fogo, a purificação e a imortalidade.
A conduta de Dejanira, ao tentar recuperar o amor do marido, ilustra a complexidade do papel da mulher grega, restrita ao espaço doméstico, mas com alguma agência dentro de seus limites: “As Traquínias permite, entre outros pontos, investigar aspectos do casamento e do local reservado às mulheres no mundo hierarquizado e segmentado da pólis” (Dagios, 2020). No mundo antigo, o casamento envolvia redes de relações e presentes, e sua ruptura ameaçava o equilíbrio social. O comportamento desmedido de Héracles ao trazer Íole compromete o oîkos e humilha Dejanira. “A desmedida do herói afeta a harmonia do lar. Dejanira é duplamente atingida: em sua honra de esposa e em seus desejos. Ciente de sua vulnerabilidade diante das forças divinas e do poder de Eros, que adoece a mente de Héracles, ela toma sua decisão, influenciada também pela astúcia do centauro Nesso” (Dagios, 2020, p. 210). Sua fala e seus atos revelam dor, mas também a tentativa de restaurar sua timé e o equilíbrio do lar: “Estou louca se vitupero meu marido” (v. 445), diz ela, revelando o conflito entre sentimento e dever.
O destino de Dejanira é trágico: perde o marido, a honra e a posição social. Se antes buscava reafirmar seu papel, agora torna-se a assassina do esposo. A morte é o consolo do inconsolável. Sua trajetória revela o entrelaçamento entre destino e ação humana.
Ao discutir o lugar da mulher na tragédia, é preciso cautela. Embora a peça permita essa problematização, trata-se de um terreno interpretativo delicado, pois as fontes são escassas e as representações idealizadas e masculinas (Dagios, 2020, p. 210). Ainda assim, As Traquínias explicita algumas expectativas sobre as mulheres atenienses, palco das encenações: passividade e obediência, sob o risco de reviravoltas irreversíveis. Dejanira não age apenas por emoções, mas em defesa de sua honra e posição.
Os personagens sofoclianos são psicologicamente complexos, pois o autor coloca a ação humana no centro da tragédia. Assim, eles são obrigados a confrontar as situações muitas vezes influenciadas por forças divinas que os levam a tomar decisões controversas na busca por compreender e enfrentar um destino que se mostra inexorável.
A peça explora a traição, a mentira e as fragilidades das relações humanas. O público sente empatia por Dejanira, pois, como afirma Jebb (2010, p. xxv, tradução nossa), “ela, de fato, é um tipo perfeito de feminilidade gentil, viveu toda sua vida em casa, possui uma influência cativante por todos que se aproximam dela”.
O estilo de Sófocles envolve o leitor na trama e na profundidade de seus personagens. Aqui não há lutas épicas ou grandes feitos, mas figuras que exibem características genuinamente humanas e revelam a fragilidade das relações pessoais. Vale lembrar que a definição aristotélica de tragédia é a de que se trata de uma imitação dos caracteres, das paixões e das ações humanas, sobretudo de ações que vão da felicidade e à infelicidade. Segundo o filósofo, para suscitar o terror e a compaixão, é necessário que o público se identifique com as situações apresentadas no palco, estando assim sujeito, também ele, aos efeitos da catarse trágica (Aristóteles, Poética, 1449b 26-27).
O amor, tomado pelo ciúme, é o motor da tragédia. A peça narra os últimos dias de Héracles, ressaltando que, mesmo o quase divino herói, está sujeito às limitações humanas e ao destino. Como observa Jebb (2010, p. xxxv, tradução nossa):
Nos sentimos um tanto predispostos contra Héracles. Ele é um grande herói, mas sua conduta em relação a essa esposa corajosa, devotada e gentil seria considerada brutal em qualquer outra pessoa que não fosse o filho de Zeus. Não se deve, porém, presumir que esse sentimento seja exclusivo da mentalidade moderna; provavelmente ele era, em grande medida, compartilhado pelo público ateniense da época do poeta.
Além de ser dramaticamente eficaz no mais alto grau, a peça também suscita em seus espectadores uma reflexão coletiva sobre questões éticas. As Traquínias destacava a importância do equilíbrio, da reflexão sobre suas ações e do controle das emoções, pois esses eram valores indispensáveis para a boa manutenção da pólis. Até o maior dos heróis pode cair no infortúnio e não escapar da imponderabilidade do destino. Dessa forma, a peça transcende sua época, mostrando as múltiplas e complexas dimensões da experiência humana, sendo capaz de produzir uma kátharsis que se mantém viva até os dias atuais.
REFERÊNCIAS
SÓFOCLES. As Traquínias. Apresentação, tradução e comentário filológico: Flávio Ribeiro de Oliveira. Campinas: Editora da Unicamp, 2009.
JEBB, Richard Claverhouse. Introduction. In: SOPHOCLES, Vol. 5: The Plays and Fragments, with Critical Notes, Commentary, and Translation in English Prose; The Trachiniae. New York: Cambridge University Press, 2010.
DAGIOS, Mateus. Dejanira e a morte no leito: considerações sobre gênero e matrimônio na tragédia As Traquínias de Sófocles. Revista Mare Nostrum, v. 11, n. 1, 2020.
VERNANT, Jean Pierre. Mito e sociedade na Grécia antiga. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
HIRATA, Filomena Yoshie. A hamartia aristotélica e a tragédia grega. Anais de filosofia clássica, vol. 2, n. 3, 2008.
ARISTÓTELES. Poética. Tradução e notas de Ana Maria Valente. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.
SOBRE A AUTORA
Amanda Vitoria Ruzzi Valer é discente do mestrado em Filosofia da UEM.